"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


A Produtora Signos Possíveis começou neste blog de escrita. Aqui você encontrará uma seleção de textos escritos e escolhidos por Madeleine Alves. Para saber mais sobre o trabalho da produtora, procure a gente nas redes sociais!


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sexta-feira, 28 de julho de 2017

COM A PALAVRA: "Paisagem com grão de areia"

Wislawa Szymborska

Nós o chamamos de grão de areia,
mas ele não se considera nem grão nem areia.
Vive perfeitamente bem sem um nome,
seja genérico, particular,
provisório, permanente,
incorreto ou preciso.
Nosso olhar, nosso toque nada significam para ele.
Ele não se sente observado e tocado.
E o fato de que caiu no parapeito
é uma experiência nossa, não dele.
Poderia cair em qualquer outro lugar,
sem saber se parou de cair
ou se continua caindo.
A janela tem uma bela vista do lago,
mas a vista não se vê a si mesma.
Ela existe nesse mundo
sem cor, sem formato,
sem som, sem cheiro e sem dor.
O fundo do lago existe sem chão
e sua margem, sem beira.
Sua água não se sente nem seca nem molhada
e suas ondas nem uma nem muitas.
Elas quebram surdas a seu próprio barulho
em pedras nem grandes nem pequenas.
E tudo isso sob um céu que por natureza não é céu,
onde o sol se põe sem se pôr
e se esconde sem se esconder por trás de uma nuvem indiferente,
agitada por um vento
que sopra apenas por soprar.
Um segundo passa.
Outro.
Um terceiro.
Mas esses três segundos são apenas nossos.
O tempo passou feito um mensageiro com notícias urgentes.
Mas isso é apenas nossa símile.
O personagem é inventado, sua pressa imaginária,

sua notícia desumana.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

COM A PALAVRA: "Antonio Maia, por César Romero"

Antonio Maia - Ex-voto, Alma e Raiz


César Romero

Antonio Maia é um nome referência na pintura brasileira. Nasceu em Carmópolis - Sergipe e, aos 17 anos, se mudou para Salvador, onde ficou por três anos (1945-1948). Depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, e lá viveu por quase 50 anos. Nesse meio tempo, morou por dois anos entre Barcelona, Londres e Genebra (1970-1972), e em São Paulo (1974). Entretanto, sua vida e atuação se deu principalmente no Rio.

Fazer arte é uma atitude, um compromisso com os semelhantes, e essa sempre foi uma postura de Maia.

Hoje, as falácias e os embustes se transformaram em sinônimo da arte atual, arte recente. O fácil, o imediatismo, parecem estar triunfando sobre o profundo. Um artista troca sua vida pela arte, porque ela lhe dá sentido, ela é coisa maior que brota como revelação de uma atitude frente ao caos. Assim fez o artista. Sempre.

O tempo avança sobre os mortais com suas cicatrizes, seus desvãos até a finitude, quando se encerra a dialética. Mas para os escolhidos, marcha ao contrário, ratifica a qualidade, modela os exemplos. O esquecimento, que pode ser temporário, é a vingança do tempo, mas o bom sabe esperar e o tempo é justo. Agora, Antonio Maia vem filtrado de história para seu merecido lugar.

Essa exposição passou pela Bahia, agora Rio e São Paulo, para que a obra de Maia seja revista e possa prevalecer como merece.

A vida vai lavando seus tecidos, até que de puros triunfem sobre o lodo.

Exposição Antonio Maia - Ex-voto, Alma e Raiz
Curador César Romero
de 10/12/2016 a 28/02/2017 - 3ª a domingo, das 9h às 19h
Caixa Cultural São Paulo
(Pça da Sé, 111 - São Paulo)
Entrada gratuita.

domingo, 18 de setembro de 2016

COM A PALAVRA: "Regras do Jogo para os Homens que queiram Mulheres Mulheres"

Gioconda Belli
(Tradução de Sílvio Diogo)

I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.

II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.

III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.

IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.

V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.

VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.

VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem renderá homenagem com ações
e dará a vida, se necessário.

VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.

IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.

X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.

XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

COM A PALAVRA: "Um chamado João" - quando um gênio homenageia outro

Um chamado João

Carlos Drummond de Andrade

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando 
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamada geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
do abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
deve pegar.

(21/XI/1967)

Poema de Carlos Drummond de Andrade que foi publicado no Correio da Manhã de 22 de novembro de 1967, três dias após a morte de João Guimarães Rosa.

(In: ROSA, J. Guimarães. Primeiras Estórias. 15ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, págs. 10-13.) 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Com a Palavra, Clarice Lispector

Madeleine Alves

Eu tinha 20 anos quando assisti a esta entrevista pela primeira vez, em uma aula de Literatura Brasileira do 3º ano do curso de Letras, ministrada então pelo apaixonado-pelas-letras Profº Ms. Sérgio Montero Aguiar. Foi uma leitura gestáltica, a que eu tive então: muito geral e superficial, como se tateasse às escuras o caminho inóspito de uma trilha desconhecida... Por vezes, somos muito novos e cheios de crenças para penetrar surdamente o reino das palavras.

O reino de Clarice é abismal. Agora, sete anos depois, eu consegui me encontrar nesta entrevista, como se houvesse encontrado um espelho d'água no meio daquela trilha — já não tão inóspita. Realmente, existem seres que estão antes de nós, durante nós e muito além de nós...

De tudo, acho que é preciso destacar uma parte que é a tônica do Signos Possíveis:

Júlio Lerner: Clarice, a partir de qual momento você efetivamente decidiu assumir a carreira de escritora?

Clarice Lispector: Eu nunca assumi.

JL: Por quê?

CL: Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional para manter minha liberdade.

JL: A sua produção ocorre com frequência ou você tem períodos?

CL: Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável.



E neste link, o depoimento de Júlio Lerner, igualmente inspirador:

http://www.revistabula.com/503-a-ultima-entrevista-de-clarice-lispector/

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Não se aprisionam musas (ou o dia em que se destravou o play station)

Marcelo Rayel

As musas não foram feitas para serem aprisionadas...




As musas são feitas de um material que vai do humano ao leve. Não se sabe realmente que tipo de impacto elas exercem sobre os pobres criadores, e também não é meu papel aqui dissecar do que seria feita uma musa. Musas são o combustível da criação, não a centelha inicial da intuição artística.

Em geral, as musas não fazem a menor ideia das emoções que apossam os criadores, nem tampouco do que eles nutrem por elas. Alguns afirmam que essa é a graça do negócio. Como costumeiramente sou do contra, acho desencontros amargos e perigosos: quase sempre são o prenúncio de um silêncio que gera uma lamentável improdutividade.

As musas melhoram o humor, causam no criador seus surtos criativos, empurram o artista a por sua cara a tapa, sem maiores receios de censuras ou quaisquer reações dessa natureza. A impressão que se tem é que tudo melhora com a presença de uma musa no coração e no ideário de um criador.

A musa existe. O ruim (para mim) é que a musa desconhece a emoção no criador que ela causa. Um artista que não é apaixonado por sua musa e tenta dela sempre estar próximo continua sendo artista, mas talvez mergulhado numa técnica, aliás bastante funcional, mas sem o menor traço da emoção e da intensidade.

Sim, as musas existem...




A não-correspondência das musas para com seus criadores muitas vezes se deve ao fato de se creditar certo tédio aosavoir-faire que os criadores (e especialmente os escritores) eventualmente internalizariam em seu dia-a-dia. O que é falso, muito, mas muito próximo da mentira. No jogo da aproximação entre os criadores e suas musas, em geral, vale a máxima de quem tem de se mexer são os criadores, uma vez que as musas são o totem da adoração apaixonada.

As musas causam paixões...




É a paixão que o criador tem de sua musa que move a materialização da obra. Uma obra pode se materializar sem uma musa? Perfeitamente. Mas a relação de paixão que o criador tem com a sua musa é que contagia a obra de emoção e sentimento. 

As musas são de carne e osso.

Sem essa musa, de carne-e-osso, que fica do lado de fora das páginas dos livros, no contato diário dela com o escritor, esse contato direto do olho no olho, a intensidade e a emoção materializados sofrem grande perda.

Em geral, quando se fala em musa, logo se imagina um ente etéreo. Não, musas não são etéreas, são totalmente carnais, em geral estão do nosso lado, muitas vezes ao alcance da mão. São, inclusive, tocadas pelos criadores. As musas são táteis, podemos senti-las com a ponta dos nossos dedos.




Essas pessoas, de carne e osso, que os criadores chamam de musas, nem sempre são um poço de beleza. São pessoas como todos nós. Há musas que para muitos não passaria de mais um rosto na multidão. O encanto que a musa exerce sobre o criador é uma relação especial, posto que só existe entre aquele criador e aquela musa. Observador algum consegue entender o que foi que o criador viu em sua musa.

Há controvérsias no que tange à fruição, à consumação da paixão entre o criador e sua musa. Há quem diga que o desencontro da paixão do criador por sua musa é que faz a materialização da obra funcionar, uma vez que confere ao fruto da criação sua superfície de convergência mais próxima com o receptor da mensagem (no meu caso, o(a) leitor(a) ). Porque a obra acaba ganhando traços, cores, padrões humanos. Se tanto o criador quanto sua musa são feitos de carne-e-osso, em muito o sobressalto dessa relação se assemelha com eventuais desencontros que acontecem na vida de todas as pessoas.

A minha opinião é um tanto diferente. O gozo da paixão entre o criador e a sua musa é que encorpa a materialização da obra, dá consistência, caldo, reverberação ao que foi criado. É a intensidade definitivamente materializada.

A minha musa tirou-me da mesmice da técnica (logo eu que sou um defensor kantiano da técnica, vejam que ironia!). Hoje eu posso trocar o grito pelas lágrimas diante do belo. Consegui, finalmente, e graças a ela, me emocionar com o simples, ter comigo mesmo a permissão da emoção. Pelas circunstâncias da vida (não, senhoras e senhores, escritores não estão no pedestal superior da arte, são pessoas iguais a vocês, com os mesmo desencontros), não foi possível qualquer espécie de fruição entre eu e ela. Mas tenho fé.


Ou seja, se eu pudesse, levava a minha musa para casa.



Postado originalmente em: http://pelaproa.blogspot.com.br/

Os direitos das imagens deste post permanecem com seus autores originais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Luxo


Deyan Sudjic

"Luxo", afirmou certa vez o arquiteto Rem Koolhaas, "é estabilidade". Animando-se com seu jeito declamatório usual, prosseguiu para emitir um manifesto. "Luxo é 'lixo'. Luxo é 'rico. Luxo éinteligente. Luxo é bruto. Luxo é contemplação." O estilo pode ser mais sugestivo de um redator com a conta de uma fragrância que do mais respeitado teórico da arquitetura de sua geração, mas ele concluiu, sem discussão, que "Luxo não é 'comprar'".

Na verdade, a flutuação bulímica entre a gratificação e o sentimento de autorrepugnância gerado pela compulsão de comprar demais, depressa demais, é exatamente o que o luxo se tornou. Nem sempre foi assim. O fenômeno da compra é o resultado de uma aceleração enorme e muito recente do ritmo com que consumimos. Luxo teve outros significados no passado.

Luxo era a trégu que a humanidade encontrava para si da luta diária pela sobrevivência. Era o prazer a ser encontrado na compreensão da qualidade das coisas materiais que eram feitas com cuidado e seriedade. Era o aspecto da natureza de um objeto que nos permite compartilhar o prazer que ele dava a seu designer ou a seu fabricante. Era um reflexo de inteligência, bem como de sensações táteis.

O alívio que o luxo podia oferecer é o que encorajava os déspotas mais brutais e violentos a financiar eruditos e artesãos para criá-lo. É devido aos recursos que eles exigiam que o luxo é uma característica que também se tornou um sinal de status, destacando um grupo social de outro.

A escassex pode transformar as coisas mais simples em luxo. É mais difícil entender direito o luxo numa era de fartura. Quando a alternativa é um poço manual a oitocentos metros de distância, sob um sol escaldante, uma bomba elétrica, um fornecimento de energia confiável e uma tubulaçãode plástico podem trazer para uma comunidade inteira o luxo antes inimaginável de um abastecimento de água constante. Mas quando a bomba funciona 24 horas por dia, e cada torneira da aldeia está preparada para dar água limpa a qualquer momento, então um privilégio extraordinário já não parece luxo. Tornou-se o direito mais básico, e perdê-lo é ser violentado.

Mas compare a sensação de um gole de uma água de nascente pura e gelada, tirada de uma torrente correndo num rochedo, com a experiência mais corriqueira de encher um copo com água do filtro. Contanto que seja uma opção feita livremente, e não uma necessidade diária imprescindível, aquele gole é a experiência mais intensa e mais emocionante e, pode-se dizer, bem mais luxuosa das duas.

Livro: A Linguagem das Coisas
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
Intrínseca, 2010, pp. 91/92

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cântico negro


José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio


Julio Cortázar

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão te dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente este miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Livro: Histórias de cronópios e de famas
Tradução: Glória Rodríguez
Civilização Brasileira, 2009, p. 16

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A força da subjetividade

"As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste."

terça-feira, 26 de maio de 2009

Dê a Paixão e move-se o mundo


Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a ver assim. Mais densa e eloquente do que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano.

Tzvetan Todorov
A Literatura em Perigo

quarta-feira, 18 de março de 2009

Receita de Ano Novo


Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

terça-feira, 10 de março de 2009

Com a Palavra, Herbert Read




"Quanto mais insistimos sobre a plasticidade do filme (quer dizer, sobre suas possibilidades artísticas) mais ainda exigidos do artista dotado de imaginação no processo de produção. Isto é bem oposto à tendência atual, de reduzir o papel do roteirista à insignificância. Mas quando o cinema exaurir o seu élan técnico deverá, então, retornar inevitavelmente aos poetas. Pois a qualidade de uma obra de arte sempre depende da qualidade da mente diretora ou produtora e nenhuma arte pode sobreviver apenas mediante uma inspiração mecânica. Haverá sempre o lugar para o filme documentário, científico ou de atualidades: porém, ao fim, o público desejará o filme de imaginação, de visão. E então chegará o dia do poeta, do roteirista ou qualquer outra coisa que o chamemos, pois esse artista será de um novo tipo — um artista com a sensibilidade visual do pintor, a visão do poeta e a noção de tempo do músico. Em lugar de se duvidar das possibilidades artísticas do cinema, como meio de expressão, dever-se-ia, antes de tudo, duvidar da capacidade artística do homem de elevar-se às altas oportunidades desse novo meio. É uma nova caixa de Pandora a que o homem carrega consigo, da qual já eliminou todas as espécies de males, mas na superfície da qual ainda permanece a esperança."


extraído do livro A Idéia do Cinema