"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Luxo


Deyan Sudjic

"Luxo", afirmou certa vez o arquiteto Rem Koolhaas, "é estabilidade". Animando-se com seu jeito declamatório usual, prosseguiu para emitir um manifesto. "Luxo é 'lixo'. Luxo é 'rico. Luxo éinteligente. Luxo é bruto. Luxo é contemplação." O estilo pode ser mais sugestivo de um redator com a conta de uma fragrância que do mais respeitado teórico da arquitetura de sua geração, mas ele concluiu, sem discussão, que "Luxo não é 'comprar'".

Na verdade, a flutuação bulímica entre a gratificação e o sentimento de autorrepugnância gerado pela compulsão de comprar demais, depressa demais, é exatamente o que o luxo se tornou. Nem sempre foi assim. O fenômeno da compra é o resultado de uma aceleração enorme e muito recente do ritmo com que consumimos. Luxo teve outros significados no passado.

Luxo era a trégu que a humanidade encontrava para si da luta diária pela sobrevivência. Era o prazer a ser encontrado na compreensão da qualidade das coisas materiais que eram feitas com cuidado e seriedade. Era o aspecto da natureza de um objeto que nos permite compartilhar o prazer que ele dava a seu designer ou a seu fabricante. Era um reflexo de inteligência, bem como de sensações táteis.

O alívio que o luxo podia oferecer é o que encorajava os déspotas mais brutais e violentos a financiar eruditos e artesãos para criá-lo. É devido aos recursos que eles exigiam que o luxo é uma característica que também se tornou um sinal de status, destacando um grupo social de outro.

A escassex pode transformar as coisas mais simples em luxo. É mais difícil entender direito o luxo numa era de fartura. Quando a alternativa é um poço manual a oitocentos metros de distância, sob um sol escaldante, uma bomba elétrica, um fornecimento de energia confiável e uma tubulaçãode plástico podem trazer para uma comunidade inteira o luxo antes inimaginável de um abastecimento de água constante. Mas quando a bomba funciona 24 horas por dia, e cada torneira da aldeia está preparada para dar água limpa a qualquer momento, então um privilégio extraordinário já não parece luxo. Tornou-se o direito mais básico, e perdê-lo é ser violentado.

Mas compare a sensação de um gole de uma água de nascente pura e gelada, tirada de uma torrente correndo num rochedo, com a experiência mais corriqueira de encher um copo com água do filtro. Contanto que seja uma opção feita livremente, e não uma necessidade diária imprescindível, aquele gole é a experiência mais intensa e mais emocionante e, pode-se dizer, bem mais luxuosa das duas.

Livro: A Linguagem das Coisas
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
Intrínseca, 2010, pp. 91/92

Um comentário:

circular 73 disse...

A sempre preocupante forma de consumir atual nos salta aos olhos quando nos deparamos com suas consequências.
É preciso estar atento a essa forma de analgesia coletiva. O torpor que aliena é sempre perigoso