"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Anima

Madeleine Alves

O maior alcance de uma mulher
não reside em seu estado de matéria:

não está no que foca sua retina
não passa pelo sangue de sua artéria

não rescende na fragrância de seu perfume 
não vibra em positividade ou energia deletéria.

Mora entre a ira e a alegria
a euforia e a calmaria
a libido e a sinfonia
a prática e a teoria. 

O maior alcance de uma mulher

é transformar-se em uma idéia.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Ponto do Sagrado

Madeleine Alves

Fui feliz no dia em que o barco de Deus estava à deriva.

A água batia limpa e fria como a súbita ausência dos meus pensamentos.

O cão puxava a rede com os homens. E meu coração latia - em espanhol - compassando acordes que, de tão bons, saíram de moda.

Lá fora, o dia era cinza em brasa. E todos os elementos ululavam.

Mas eu, feita de matéria etérea, não tinha ontem, hoje ou amanhã, desejosa que estava pelo sempre.

O Sempre que a Deus pertence. Ao contrário do barco - que estava à deriva.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Carta 0

Madeleine Alves

Precipito um passo ao pé do verso
e ele se agiganta 
como se tudo acordasse enfim 
para a força do poema.

Loucamente, miro andar sobre abismos.
O tempo escorre enquanto corro
e ouço
as rosas que perderam a fala.

Murmuram, de nuvem em nuvem,
um cúmulo
sobre o crepúsculo
do poente minúsculo.

- um dia, serei consorte.
Mas, com sorte,
todo dia serei forte.

domingo, 16 de setembro de 2018

No pelo das horas

Madeleine Alves

Passo os dedos por sobre o pelo das horas
- sem ponteiros -
enquanto o poema se pronuncia.
Balbucio o vazio.
A casa dorme.
Eu verto versos 
conformada com uma minúscula página.
Ágil,
a rima se agiganta.
Quero reprender a linguagem da vida
- sem pausas -
como quem sorve segundos
de um ribombante silêncio
e gorgeia imagens.

No instante da madrugada,
o cão dorme.
A loba cria.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Estradear


Madeleine Alves

- algo com rodas conduz a carcaça enquanto a alma caça a mata em seus borrões.

Estradeia o olhar que viaja de paisagens exuberantes a cachos de bananas.

De curva em reta,
De reta em curva,
o passageiro avista 
o corpo da terra 
fazendo amor 
com o verde cume do monte.

Estradear: vagar vivo pela essência móvel do momentum 

e captar desejos de que haja amanhãs para tantos ontens. 

sábado, 21 de julho de 2018

Celacanto

Madeleine Alves

Há uma pele morta que jaz
sobre a tez fugidia das horas.

Uma alma velha parte
para alhures;
uma ânima nova nasce
sob olhares

Vento versos inacabados
quebrados
como grito na garganta 
entalados.

Logo, todos ouvirão soar 
o velho novo canto
que não desistiu de sonhar!

domingo, 13 de maio de 2018

Redesperta!

Madeleine Alves

E porque aquele olhar a penetrava
poro a poro
como pena no tinteiro da caneta.
E reescrevia em terra árida
- ressequida e esquecida -
um sem-fim fértil de desejos.

E de ensejo em ensejo,
como abrupto encontro em dia de garoa,
a pele da terra refresca-se
de arrepio...

E se lembra de que é boa
a tempestade dos sentidos
que faz renascer a mulher
- e bota pra dormir a garota.