"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


domingo, 18 de setembro de 2016

COM A PALAVRA: "Regras do Jogo para os Homens que queiram Mulheres Mulheres"

Gioconda Belli
(Tradução de Sílvio Diogo)

I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.

II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.

III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.

IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.

V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.

VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.

VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com ações
e dar a vida, se necessário.

VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.

IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.

X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.

XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Musa Impassível

Madeleine Alves


“Retirar o invólucro a um objeto, destroçar a sua aura, são características de uma percepção, cujo ‘sentido para o semelhante no mundo’ se desenvolveu de forma tal que, através da reprodução, também o capta no fenômeno único.”
Walter Benjamin – A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica



A história da Musa Impassível sempre causou em mim grande fascínio. Para os que não conhecem, a Musa Impassível é uma estátua em mármore carrara de 2,80m e 3 toneladas, criada pelas habilíssimas mãos de Victor Brecheret. Sua origem começa na literatura, com o poema de mesmo nome de Francisca Júlia da Silva Munster, mais conhecida como poetisa Francisca Júlia.






I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.


Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

(Publicado no livro Mármores - 1895)

A poetisa logo alcançou reconhecimento entre os poetas parnasianos e publicações de jornais. Com sua morte, o Governo do Estado de São Paulo encomendou a criação ao jovem Brecheret, então bolsista em Paris. Com base nos escritos de Francisca Júlia, o escultor criou, de 1921 a 1923, um trabalho digno das seguintes palavras de Menotti Del Picchia: “É a Musa Impassível, um mármore (...) criado pelo cinzel triunfal de Victor Brecheret. (...) Na augusta expressão dos seus olhos, do seu busto erecto, das suas mãos ritmicas, há toda a grandeza e a beleza daquela musa impassível da formidável parnasiana que concebeu e realizou a ‘Dança das Centauras’. O estatuário foi bem digno da poetisa.” 

A escultura engrandeceu o túmulo da poetisa até 2006. A urbanização desenfreada, a ação do tempo, a chuva ácida – tudo representava um perigo para a escultura. Em delicada operação, a estátua foi transferida para a Pinacoteca do Estado, no Parque da Luz, onde está até hoje em exposição. Em 2011, A Musa Impassível tornou-se filme, dirigido por Marcela Lordy.



O poema, a foto da escultura imponente, o filme, a história. De tudo, veio um fascínio. Mas, muito mais, desse mito da “mulher impassível”, inatingível. Dessa que não se emociona, não sente dor, não ama com ardor. Acima dos sentimentos mundanos, traz na lira o verso perfeito de métrica harmônica. Um arquétipo admirável... de encanto estarrecedor...

Dia desses, fui à Pinacoteca apreciar a escultura real. Deixei-a por último, como gran finalle.

Lá estava ela, no pátio. Não havia sido a escultura quem mudou. Quem mudou fui eu.



Obviamente, o trabalho de Brecheret é primoroso em seu panejamento, os volumes, os contornos. Em detalhes, tudo dela me repelia. Em detalhes, toda aura se destruía. As mãos alongadas evocavam o terror e era como se sua atmosfera assombrosa e mortífera pairasse sobre mim. Bela e assustadora.

Refleti um momento sobre minha própria existência. De certo modo, o cinzel havia rachado o mármore. Sulcos profundos atravessaram a pedra e provocaram danos irreversíveis. Restou apenas o coração selvagem e pulsante que o mármore não mais esfria. Os ídolos outrora erguidos foram acidamente destruídos pela acidez dessa chuva que a realidade goteja. O comedimento é feito de pedras frias: o convencionalismo, o ideal-socialmente aceito, as expectativas alheias. Dentro dele, morre e jaz o melhor de nós: um frustrado e perdido amor pelos sonhos, pelas pessoas, pelas causas.

Para que nada mais vire lápide tumular, sobrou aquela que não mais sublima, que não mais aceita – mas aquela que pulsa. Aquela para quem meias palavras, meias verdades e ¾ de lirismo não são mais suficientes. É preciso o Verbo – inteiro, direto, indicativo de algo. Sê todo em cada coisa.E que venha a lágrima, mas também venha o riso. Venha o que vier.


Enquanto a minha musa se destruía pelo pátio, eu partia passível rumo a esta nova vida na qual ser uma musa impassível é tudo o que não quero ser.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Poética

Madeleine Alves

O poema me inunda
Sobremaneira
- poemeira.

O verso corta caminho
Sobretudo
- poetudo.

A rima rema certeira
Sobre a beira
- poebeira.

A escansão vira canção,
corre o mundo.

- poemundo.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

COM A PALAVRA: "Um chamado João" - quando um gênio homenageia outro

Um chamado João

Carlos Drummond de Andrade

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando 
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamada geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
do abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
deve pegar.

(21/XI/1967)

Poema de Carlos Drummond de Andrade que foi publicado no Correio da Manhã de 22 de novembro de 1967, três dias após a morte de João Guimarães Rosa.

(In: ROSA, J. Guimarães. Primeiras Estórias. 15ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, págs. 10-13.) 

sábado, 30 de julho de 2016

Nem antes, nem depois

Madeleine Alves 

Na hora certa, 
os címbalos soarão a
cristalina cachoeira.

Na hora certa,
a tala ecoará o
cântigo dos cânticos. 

Na hora certa,
na seda dissolver-se-área
os amargores antigos.

Na hora certa,
rutilará no céu estrela derradeira 
para quem sempre esteve à margem, 
no centro de uma outra beira.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Meditação

Madeleine Alves

Os intrépidos anos
abruptos
dão lugar à solidez dos planos.

De pés a raízes
zarpam da árvore sementes aladas.

De cá
De lá
definham passados
os medos passados.

Há o Uno: 
multifacetado uno
multidesdobrado uno
multinterligado uno. 
Apenas uno - 
Húmus fértil de futuros puros.
Homem forte de gratia plena.