"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


domingo, 13 de maio de 2018

Redesperta!

Madeleine Alves

E porque aquele olhar a penetrava
poro a poro
como pena no tinteiro da caneta.
E reescrevia em terra árida
- ressequida e esquecida -
um sem-fim fértil de desejos.

E de ensejo em ensejo,
como abrupto encontro em dia de garoa,
a pele da terra refresca-se
de arrepio...

E se lembra de que é boa
a tempestade dos sentidos
que faz renascer a mulher
- e bota pra dormir a garota.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

While change remains

Madeleine Alves


Silent by the path
I follow

Sleepy days on my shoulders
while I seat and sing on the bench

Silent by the path
I follow

Thirsty lips of no kisses
while my mouth is full of whispers

Silent by the path
I follow

Heavy gravity on my eyes' dark circles
while my back is full of wings

Silent by the path

I follow

terça-feira, 10 de abril de 2018

Aluvião, aliviai

Madeleine Alves


Era um dia chuvoso e Rose observava o cair da chuva por detrás da janela. Encolhida em seu sofá, avistava o caminho que a água percorria bifurcar-se, trifurcar-se pelo vidro grande e salpicado de gotículas, enquanto abraçava as pernas recolhidas como quem precisa de um abraço. O queixo por sobre os joelhos. Por sobre a cabeça, nuvens espessas e cinzentas de pensamentos; enquanto que, por dentro, o peito era um poço fundo no qual, talvez, houvesse um mar de sentimentos reprimidos.

Rose despetalava-se naquela tarde de domingo. A chuva fustigava a vidraça e incutia-lhe uma obsessão: quando, enfim, teria uma vida para chamar de sua?

Castrada emocionalmente, castrava outros. Talvez, os mais importantes. Sentia a pele espessa e áspera, como quem há muito tempo não sabia o que era o toque do amor. Teria, algum dia, sabido o que era isso? Saberia, algum dia, o que é isso?

Estava farta dos gritos. De compromissos inadiáveis. De noites insones. Já não suportava mais carregar os fardos alheios. No fundo, a lágrima que agora escorria no rosto de Rose era o caminho tortuoso que a água traçava no vidro e lhe inquiria: ate quando? 

Até quando tudo tanto para o mundo...

... e tão pouco para si?

Como quem se contenta com o chocolate mofado no bar da esquina ou o pó do suco insosso do hipermercado. E ainda acha-se com sorte no "Leve 4, Pague 3".

A vida, Rose, cobra cada uma de suas moedas.

E então, Rose murchou e desaguou em lágrimas.

Trovejava lá fora e, aqui dentro, Rose adquiria tons cinzentos nos seus cabelos. Subitamente, o choro era tão sentido - este que fora tão calado e ignorado - que Rose surpreendeu-se por ainda ter a capacidade de chorar. Quando fora a última vez? Não se lembrava...

Mas agora, desaguando, lembrava-se de uma cena tão terrível quanto bela. Era uma cortina de chuva chegando no horizonte, recém-passando montanhas, lá no alto-mar. Em seu vestido vermelho, sentia o vento beijar-lhe os cachos, sentada na pedra, admirando a tempestade chegar e varrer, acortinar o céu, fundir-se com o mar. Naquele breve instante de contemplação, sentia-se livre. Fora a última vez.

O focinho de seu cão tocou-lhe as pernas. Cabisbaixa, a testa, que tocava os joelhos, levantou e viu aquele ser que nunca a abandonava. E que perseverava amando-a mesmo nos dias mais odiosos. Era um olhar doce, puro e fiel como só um cão poderia lhe dar naquele momento. Rose, então, afagou-o, endireitando o corpo. Olhos inchados e coxas úmidas de sal de lágrimas, estendia-se para encontrar o cão - que só queria brincar.

Does anybody remember laughter?

De graça em graça, o cão salvou Rose como quem planta uma semente de bem naquele jardim que só a alma abarca. A grande janela estava agora salpicada de gotículas pós-chuva. A cidade e sua caixa-d'água romana desativada estendiam-se plácidas, enquanto nesgas de luz solar ousavam cortar as nuvens e, corajosamente, formar novos matizes. Era Deus pintando um novo e inédito pôr do sol.

Rose sorriu novamente: sentia-se rica daquilo que o dinheiro não compra. Tinha olhos para apreciar a riqueza do mundo - que nos é dada de graça. E é disso que se nutre a esperança que invadiu o peito de Rose.

Rose agora sorri novamente: duas borboletas pousam no vidro. É tempo de se transformar.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Factível

Madeleine Alves

Faço pequenas coisas para não pensar em nada.

como anelar os cachos
manicurar unhas
e afagar cães

Faço pequenos nadas enquanto penso em tudo.

ordens do dia cotações
frames autorizações
foleys exibições

Faço de tudo pra não pensar em nada.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Em contra tempo

Madeleine Alves

Às vezes, devaneio
- muitas vezes
nos interstícios,
nos e's e ah's e hum's -
por vezes de entrecortados suspiros,
que há de vir tal vez
na qual não:
haja fuga
haja trampo
haja jóia
haja muda vontade
haja olhar inquisidor
haja tangente
haja paralelo
haja distância
haja estrada e mar e morro
haja peito ao chão
haja alma ao céu
haja prece
haja pressa
haja piada
haja post
haja passado que pesa
haja presente que cobra.

Então falaremos de nós - e apenas nós - de uma vez.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Encontrarte

Madeleine Alves

O homem-pássaro
e a mulher-borboleta
caminham no centro de uma outra margem.

Independentes entre si e do mundo
o que os une?
O Uno
A alma
O olhar

Ele inquire nuvens
Ela eclipsa-se entre flores:
buscam a essência do mundo.

Ela não sabe de seus silêncios
Ele não sabe de sua eloquente timidez:
não se sabem, descobrem-se.

Reside aí o roteiro sem rota
dos voos de asas antigas
cujo amanhã pouco se sabe
cujo presente muito se sente.
Pressente:
Obra aberta.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uno Verso

Madeleine Alves

Meu verbo vem do traço
de asas na areia
e bolhas de sabão
que sobrevoem sorrisos em almas alheias.

Substantivo quando nomeio
o indizível efêmero
da brisa que flutua o ipê rosa
o ipê amarelo
e as espirais concêntricas do núcleo da gérbera.

Adjetivo o salto de plenitude
quando saias giram
e a energia cósmica centrífuga
abre os braços para as Luzes místicas.

- Yin, defino.
- Yang, alastro...

Meus predicados são feitos de crianças imaginativas
barcas que cortam ondas ao por do sol
e o bico de pena é sujeito que o rabo do gato desenha no ar.

Só me interessa o universal:
o uno-verso viver afrouxando o cinto do banal.