"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Projeto Perpétuo

Madeleine Alves

Precisamos, todos os dias,
arar a terra da alma
com ternura.
Regar o solo sensível
com chuvas poéticas
de afeto.
Fazer, assim,
brotar galhos de bem
e flores
com o indizível odor do Amor
— ainda que haja
tanto concreto de ódio
por aí.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

XXI

Madeleine Alves

Tenho poemas que brilham em stories
e histórias que não cabem no poema.

Versos de LED e like
e love
tão reais quanto uma ilusão.

A vastidão
do mar
que minha linguagem sangra
brilha na prata profunda
desta vida
mais sonhada que vivida
mais olhada que sentida
— e menos realizada que iludida.

sábado, 10 de agosto de 2019

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Nominal

Madeleine Alves

Em certos dias, tenho outro nome.
O meu, próprio, soa estranho,
como se fora próprio a outrem.

Em estranhos dias, tenho nome meu.
O de outrem, de certo, soa amém,
como se fora outro o próprio.

Em próprios dias, tenho o mesmo nome.
O estranho, meu, soa próprio,
como se fora meu, amém.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Anima

Madeleine Alves

O maior alcance de uma mulher
não reside em seu estado de matéria:

não está no que foca sua retina
não passa pelo sangue de sua artéria

não rescende na fragrância de seu perfume 
não vibra em positividade ou energia deletéria.

Mora entre a ira e a alegria
a euforia e a calmaria
a libido e a sinfonia
a prática e a teoria. 

O maior alcance de uma mulher

é transformar-se em uma idéia.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O Ponto do Sagrado

Madeleine Alves

Fui feliz no dia em que o barco de Deus estava à deriva.

A água batia limpa e fria como a súbita ausência dos meus pensamentos.

O cão puxava a rede com os homens. E meu coração latia - em espanhol - compassando acordes que, de tão bons, saíram de moda.

Lá fora, o dia era cinza em brasa. E todos os elementos ululavam.

Mas eu, feita de matéria etérea, não tinha ontem, hoje ou amanhã, desejosa que estava pelo sempre.

O Sempre que a Deus pertence. Ao contrário do barco - que estava à deriva.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Carta 0

Madeleine Alves

Precipito um passo ao pé do verso
e ele se agiganta 
como se tudo acordasse enfim 
para a força do poema.

Loucamente, miro andar sobre abismos.
O tempo escorre enquanto corro
e ouço
as rosas que perderam a fala.

Murmuram, de nuvem em nuvem,
um cúmulo
sobre o crepúsculo
do poente minúsculo.

- um dia, serei consorte.
Mas, com sorte,
todo dia serei forte.