"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Diáfano difuso timorato


Madeleine Alves

Os olhos

Teus olhos

Aqueles olhos...


O verde descortina mistérios

códigos

códices

Dizem de estradas poentas

entradas cinzentas

e um corpo d’água em chamas

chamas

ao trocar dedilhos

e dois dedos de prosa

sob a intangível névoa do amanhecer.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Luxo


Deyan Sudjic

"Luxo", afirmou certa vez o arquiteto Rem Koolhaas, "é estabilidade". Animando-se com seu jeito declamatório usual, prosseguiu para emitir um manifesto. "Luxo é 'lixo'. Luxo é 'rico. Luxo éinteligente. Luxo é bruto. Luxo é contemplação." O estilo pode ser mais sugestivo de um redator com a conta de uma fragrância que do mais respeitado teórico da arquitetura de sua geração, mas ele concluiu, sem discussão, que "Luxo não é 'comprar'".

Na verdade, a flutuação bulímica entre a gratificação e o sentimento de autorrepugnância gerado pela compulsão de comprar demais, depressa demais, é exatamente o que o luxo se tornou. Nem sempre foi assim. O fenômeno da compra é o resultado de uma aceleração enorme e muito recente do ritmo com que consumimos. Luxo teve outros significados no passado.

Luxo era a trégu que a humanidade encontrava para si da luta diária pela sobrevivência. Era o prazer a ser encontrado na compreensão da qualidade das coisas materiais que eram feitas com cuidado e seriedade. Era o aspecto da natureza de um objeto que nos permite compartilhar o prazer que ele dava a seu designer ou a seu fabricante. Era um reflexo de inteligência, bem como de sensações táteis.

O alívio que o luxo podia oferecer é o que encorajava os déspotas mais brutais e violentos a financiar eruditos e artesãos para criá-lo. É devido aos recursos que eles exigiam que o luxo é uma característica que também se tornou um sinal de status, destacando um grupo social de outro.

A escassex pode transformar as coisas mais simples em luxo. É mais difícil entender direito o luxo numa era de fartura. Quando a alternativa é um poço manual a oitocentos metros de distância, sob um sol escaldante, uma bomba elétrica, um fornecimento de energia confiável e uma tubulaçãode plástico podem trazer para uma comunidade inteira o luxo antes inimaginável de um abastecimento de água constante. Mas quando a bomba funciona 24 horas por dia, e cada torneira da aldeia está preparada para dar água limpa a qualquer momento, então um privilégio extraordinário já não parece luxo. Tornou-se o direito mais básico, e perdê-lo é ser violentado.

Mas compare a sensação de um gole de uma água de nascente pura e gelada, tirada de uma torrente correndo num rochedo, com a experiência mais corriqueira de encher um copo com água do filtro. Contanto que seja uma opção feita livremente, e não uma necessidade diária imprescindível, aquele gole é a experiência mais intensa e mais emocionante e, pode-se dizer, bem mais luxuosa das duas.

Livro: A Linguagem das Coisas
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
Intrínseca, 2010, pp. 91/92

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cântico negro


José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

O Cântaro


Madeleine Alves


Derramar o bálsamo

Fazer o canto cântaro cantar...

(Gilberto Gil, Palco)

O agridoce à boca

E o sabor dos versos

E o gosto dos verbos

que antes não entendia.


As estradas mentais

nomes e bairros e barros

as cores das flores...

São lugares aos quais nunca fui.


Fome frente ao infindável

Nomes ao inominável

Sondas ao insondável


O nunca vazio que sempre trago dentro de mim.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lia


Madeleine Alves

Elias

Enquanto caminhavas à tarde pela orla

Elias

Enquanto dormias em colchões diversos

Elias

Enquanto o vinho esquentava o alvor

Elias

Enquanto choravas e davas adeus ao amor



Até que um dia Lia conheceu Elias

E já não lia mais.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Navio "Fênix"

Madeleine Alves

Quebrou-se a corrente.

Quedou-se um coração ao chão.

(Não foi o meu)


Caíram lágrimas

Correram pelo canal

Escoaram-se no mar.


Eu zarpei.

Não olhei pra trás.

Eu zarpei.


Singrei
Sangrei
Naufraguei
Afundei
Voltei

E zarpei...


Grávida de futuro

Sedenta de vida

Rumo ao horizonte...


Todos os faróis acenam

— o coração como capitão.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio


Julio Cortázar

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão te dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente este miúdo quebra-pedras que você atará ao pulo e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Livro: Histórias de cronópios e de famas
Tradução: Glória Rodríguez
Civilização Brasileira, 2009, p. 16