"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


A Produtora Signos Possíveis começou neste blog de escrita. Aqui você encontrará uma seleção de textos escritos e escolhidos por Madeleine Alves. Para saber mais sobre o trabalho da produtora, procure a gente nas redes sociais!


domingo, 5 de junho de 2022

“Não pondero sonhos”

 Madeleine Alves


Delírio é lutar a vida toda por algo e quando se alcança, não ver mais sentido nisso.

Delírio é todos os dias pegar a mesma condução e fazer o mesmo trajeto — e

achar que isso é normal.

Delírio é querer ter tempo para estar com amigos e família — e quando se está com eles, querer estar em algum outro lugar.

Delírio é acreditar que a vida nas redes sociais é o que mais importa.

Delírio é se conformar com uma vida que não tenha um instante para admirar a beleza.

Delírio é acreditar que bajuladores gostam mesmo de você.

Delírio é trabalhar, trabalhar, trabalhar — e, um dia, se dar conta que tanto se trabalha para não enxergar e curar o vazio que existe dentro de si.

Delírio é acreditar que música boa é só a que viraliza nas redes sociais.

Delírio é botar fé que é preciso massacrar a criatividade todos os dias para ter posts todos os dias para ter engajamento todos os dias.

Delírio é criar coisas que não têm alma.

Delírio é se importar tanto com o que outros pensam a ponto de calar um sentimento.

Delírio é não lutar para realizar os sonhos de juventude.

Delírio é levar o fim de semana inteiro para maratonar uma série e não ter um minuto para escutar alguém que é importante para você.

Delírio é ter tanta certeza de que o outro tem uma vida tão mais interessante que a sua a ponto de você deixar de lado a sua própria vida.

Delírio é pensar que se precisa de tanto estudo para entender aquilo que só a intuição pode te ensinar.

Delírio é dizer tudo o que se pensa.

Delírio é não ouvir o clamor da natureza.

Delírio é não perceber que a arte nos salva, é profissão e gera beleza.


Delírio é viver tempos tão tristes que não nos permitam imaginar.


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Uma crônica para o Homem-Crônica

 Madeleine Alves


    Em um tempo tão estranho, entre desaparecimentos de seres viventes, vazios e lacunas, decidi que cada amigo meu que parta terá um ritual específico. Algum que me faça fazer jus ao tipo de conexão com que tive com essa pessoa. Talvez, este seja o mais público, uma vez que seja feito de texto e palavras — o universo do Marcão.

    O modo como eu conheço os jornalistas é, em geral, muito diferente de como os jornalistas e professores de jornalistas se conhecem. Estou fadada a virar amiga dos professores dos meus amigos. Para minha sorte, porque, assim, me ensinam tudo aquilo que não se ensina em uma aula. O Marcão, eu conheci em 2007, em Letras. O TCC era sobre o uso da linguagem não-verbal no BBB. Talvez dispensasse dizer que na sala — um sábado à tarde — só havia o meu colega apresentando (sem nem a família presente), eu passando os slides e a banca. O tema era pouco prestigioso na nossa área, o que deu um trabalhão para meu colega de curso achar um examinador caridoso que topasse avaliar o trabalho. Conseguiram no Jornalismo, que ficava do outro lado da rua. Não é de hoje que as mentes e sensibilidades das pessoas precisam de um pouco mais de expansão.

    O meu colega fez sua exposição em 20 minutos com a nossa visão acadêmica sobre a comunicação — invariavelmente, uma sobreposição de teorias sobre teorias (especialidade de Letras) que vão por um caminho diferente do que analisam os comunicólogos. Acabada a explanação, era a vez de o examinador dar seu parecer. O que se seguiu foi um show à parte, com outros 20 minutos nos quais o Marcão compilou o que havia de melhor para que nós — leigos na área dele — entendêssemos a outra via, um outro ponto de vista mais ligado à prática e ao fazer televisivo. Foi a primeira pessoa que nos falou que o que move os reality shows são os conflitos. E ainda estávamos ali pelo BBB 4 ou 5. Não lembro qual a nota do meu amigo: mas por tudo o que ele, eu e a orientadora aprendemos com Marcão, este tirou 10. Pena de quem perdeu. Descemos a Conselheiro Nébias trocando ainda mais idéias sobre filmes e um tal vazamento de Tropa de Elite na internet, papo bom mesmo! Não nos vimos mais por anos.

    O apelido veio no lançamento de um dos livros da Regina Alonso. Marcão já havia publicado algumas crônicas na cidade e escreveu o prefácio do livro dela. Em um dado momento do lançamento, houve uma pausa para que os colaboradores do livro dessem uma palavra sobre como foi participar deste trabalho. E lá estava Marcão falando do exato momento no qual o convite para o prefácio chegou e como isso transformou uma tarde difícil. Veja bem: ele FALOU em linguagem de crônicas, contando o momento como se escrevesse um texto. Como em geral essas ocasiões são bem ruidosas, deixei para comentar num post dele que sim: ele era o Homem-Crônica! Não lembro bem o feedback mas imagino que deve ter se rido disso.

    Marcus Vinicius era de um respeito bem raro de se ver com o texto em nossos tempos. Não havia palavras excessivas, exageros de expressão ou afetações. Como alguém mais do que acostumado a contar o cotidiano com palavras que todos pudessem entender. Nunca conversamos sobre quais seriam seus cronistas favoritos, mas sempre que o lia, lembrava de nomes como Rubem Braga e Moacyr Scliar. Uma vez, me mandou na lista do whatsapp uma que era da mesma linhagem das do Veríssimo, com o jogo dos diálogos dos personagens. Por meio de seus microcontos e crônicas, percebíamos a fina visão que tinha sobre os detalhes do cotidiano, o faro para as boas histórias que ninguém vê. Generosamente, por meio do texto, nos deixava participar de sua visão de mundo, suas indignações e mesmo desafios da sua vida. Alguém tão atento à tessitura do texto só poderia ter criado a editora que criou com a jornalista e cronista Beth Soares: a Ateliê de Palavras. Um nome que deixa bem claro que ainda há gente no mundo que acredita que palavras não sejam artefatos para serem jogadas a esmo. A amizade e a admiração com eles ficou ainda mais próxima com a publicação de dois poemas meus em O Lobo, O Urso e a Cura. Neles, encontrei e encontro muitas palavras e atitudes de apoio e incentivo, tanto respeito e admiração pelo meu trabalho que espero que eu consiga deixar claro que a recíproca é 100% verdadeira.

    De Marcão, recebi o feedback para meu próximo trabalho numa entrevista a que foi acompanhado do Vini — um recorrente personagem seu. No caso dele, começava sempre com Nada como ter um filho de X anos que... — ao que seguia à narração de um fato visto sob a percepção do filho. Conhecer o Vini pra mim foi quase como se a J. K. Rowling me apresentasse o Harry Potter: alguém sobre quem você já leu tanto que se lembra de cenas e particularidades a ponto de formar uma imagem mental, mas que ainda não conhecia pessoalmente. Foi também Marcão que me fez um convite para escrever o texto mais difícil que já escrevi: uma crônica bem particular. Eu não sou acostumada a escrever crônicas e — o que foi ainda mais desafiador — eu decidi por um viés absolutamente pessoal. Entreguei com atraso no deadline, olhos copiosamente chorosos enquanto uma mão automática e um reconhecimento abissal em um período de pandemia — que deixa os nervos de qualquer um à flor da pele — transformava em texto e materialidade a experiência de criação de longe mais desafiadora que enfrentei. Foi como atravessar um limiar, uma fronteira, um mar aberto. É interessante como isso me curou. Como os trabalhos da Ateliê de Palavras têm a ver com Jornalismo e Literatura — mas também com cura.

    É igualmente triste que uma doença para a qual não haja cura — mas procedimento e vacina sim — tenha levado de nós o melhor cronista que Santos teve na sua história recente. Eu não sou ingênua, leitor, a ponto que querer convencer ninguém das minhas convicções porque, quando alguém não está disposto a entender, não adianta nem gritar. Deixo aqui, então, o som do silêncio ensurdecedor desse ritual para um amigo a quem eu gostaria de não ver esquecido. Ficam os textos os blogs, os livros. Como tantos outros, que desapareceram em um triste e escuro tempo sem que a gente pudesse dizer adeus.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Mercy Street

Madeleine Alves


Tudo se passou como se a Existência me chamasse ao seu colo.

Era um dia de sol de quase fim de verão — um verão fresco e chuvoso, nada parecido com o verão de calores e ardores do ano anterior.

Há dias queria fugir do stress cotidiano. Aquela sexta era perfeita para realizar o desejo de praia da alma!

Isso ficou claro assim que pus os pés na areia, afundando-os em sua morna fofura. Uma areia quase exclusiva: era dia comum, todos trabalhavam no asfalto e seu piche tórrido. Caminhava na areia aquecida com a alegria de quem se sente voltar para casa. Pensando bem... sim, eu ali  estava mais em casa do que em qualquer outro lugar...

Uma leve brisa tocava a pele, meus ombros, meus cabelos, como num abraço de boas-vindas sob o céu totalmente azul — não fossem uma nuvem aqui, outra acolá. Estendi a canga no trecho escolhido, de alma agradecida, sorriso nos lábios e fone de ouvido.

A pele, que queimava sob o sol coberta pelo bronzeador, dentro de algum tempo pedia por frescor. Aquele que viria daquela visão que o cotidiano transformou em um papel de parede em 3D.

Quando afundei meu corpo naquele manto azul sem ondas, que se estendia como um espelho matizado do azul do céu, cada célula foi coberta em um banho terno, bento e tépido. Durante a oração que fiz a seguir, a luz do sol iluminou as minúsculas ondas como se houvessem pequenos diamantes reluzentes e inatingíveis por mãos humanas.

Grata estava pelo momento.

Grata estava pelo presente de existir.

Grata estava pela experiência dos sentidos.

Não havia gritos ou sussurros.

Não havia notificações de telefone ou roncos de carros.

Não havia dor ou ofensa de nenhuma espécie.

Apenas aquele abraço da Natureza a penetrar um corpo humano, acolhê-lo em seus Reinos, abraçá-lo em sua fragilidade e no fundo do peito plantar a certeza como semente inabalável de que tudo daria certo.

Quando por fim saí do mar, olhei ao redor. Havia no ar uma atmosfera de sonho, um filtro de ilusão âmbar sobre meus olhos, uma certa névoa sobre das imagens focadas...

... a existência era aquiescência e sensação...

Plena do indizível, deixei aquele lugar após duas horas de comunhão com tudo o que há. Voltei à vida e ao cotidiano.

Na semana seguinte, tudo trancou e o mundo, era só medo, morte e escuridão. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

"Viajem..."

Madeleine Alves

No louco motor
do trilho dos dias,
as horas descarrilham.

Na fumaça da pressa,
a cor da paisagem
assume a fuligem
do medo.

Cedo
aos caprichos dos passageiros
que já vão 
tarde.

Não tarda
crepúsculo de essência
que arda a esperar
— sem badulaques —


minha presença na estação.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Projeto Perpétuo

Madeleine Alves

Precisamos, todos os dias,
arar a terra da alma
com ternura.
Regar o solo sensível
com chuvas poéticas
de afeto.
Fazer, assim,
brotar galhos de bem
e flores
com o indizível odor do Amor
— ainda que haja
tanto concreto de ódio
por aí.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

XXI

Madeleine Alves

Tenho poemas que brilham em stories
e histórias que não cabem no poema.

Versos de LED e like
e love
tão reais quanto uma ilusão.

A vastidão
do mar
que minha linguagem sangra
brilha na prata profunda
desta vida
mais sonhada que vivida
mais olhada que sentida
— e menos realizada que iludida.

sábado, 10 de agosto de 2019