"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

TCHAU, ANJOS TCHAU


Tradução: Madeleine Alves








Peter Gabriel foi um membro-fundador do Genesis em 1967 e deixou a banda em 1975 após a turnê de seu álbum conceitual composto por 2 LPs — The Lamb Lies Down On Broadway. Em julho daquele ano, ele divulga um comunicado que explica a sua saída da banda:




Eu tive um sonho, uma miragem. Então, sonhei com o corpo e a alma de um rock star.








Quando isso não pareceu legal, preferi guardá-lo. Revisitando as razões musicais ou não, foi isto que veio à tona:




TCHAU, ANJOS TCHAU – uma investigação



O veículo que construímos como um co-operador para nossa composição tornou-se nosso mestre e nos captou para dentro do sucesso que queríamos. Isso afetou as atitudes e o espírito de toda a banda. A musicalidade não se ressecou e eu ainda respeito os outros músicos, mas nossos papéis estavam pesados demais — para se ter uma idéia, “Genesis, o Grande” era uma concretude muito maior do que antes.






Para qualquer grupo, transferir o epicentro do entusiasmo para o profissionalismo é uma operação difícil. Acredito que o uso do som e da visualidade pode ser muito melhor desenvolvido do que o que fizemos. Mas, em larga escala, isso precisa de um direcionamento claro e coerente — algo que o sistema do nosso comitê pseudo-democrático não pode proporcionar. Como um artista, preciso absorver uma variedade inestimável de experiências. É complicado corresponder à intuição e ao impulso tendo em vista o planejamento a longo prazo de que a banda precisa.


Senti que preciso encarar / aprender / desenvolver a mim mesmo, meus pontos e partes criativos e juntá-los em muitos trabalhos que vão além da música. Até os encantos ocultos do crescimento dos vegetais e dos seres viventes estão começando a revelar seus segredos — eu não posso esperar que o grupo molde seus compromissos de acordo com a minha escravidão frente às couves. O aumento do dinheiro e do poder me teria ancorado aos refletores, se eu tivesse permanecido. Contudo, era importante que eu desse espaço à minha família, que eu gostaria que estivesse junto de mim, e ao pai que há em mim.



Apesar de eu ter visto e aprendido uma porção de coisas nos últimos sete anos, acho que comecei a ver as coisas como o Gabriel, o Famoso — escondendo-me de minhas ocupações, pegando caronas etc. Comecei a pensar de forma comercial — algo muito útil para um outrora tímido músico; porém, tratar os álbuns e o público como dinheiro me estava distanciando deles. Quando eu me apresentava, havia menos tremor correndo pela espinha. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, o mundo passará por um difícil período de mudanças. Estou empolgado com algumas áreas que estão emergindo quando pareciam estar escondidas na mente das pessoas. Quero explorar e preparar-me para estar aberto e flexível o suficiente para responder a isso, e não estar preso à velha hierarquia. Muitas das minhas ambições psíquicas como o “Gabriel arquetipicamente rock star” foram correspondidas — muita ego-gratificação e a necessidade de atrair mocinhas, talvez o resultado da rejeição freqüente ao “Gabriel introspecto garoto de escola pública”.


























Contudo, eu ainda posso sair por aí brincando de ser estrela de vez em quando. Meu futuro na música, se é que existe, residirá no maior número possível de situações. É legal ver um número cada vez maior de artistas libertando-se de seus casulos. Eis a diferença entre bateria a galinha — rentável, compartimentada — e os sortimentos ilimitados. Por que a galinha atravessou a estrada, caramba? Não há nenhum tipo de animosidade entre mim e a banda ou seus organizadores. A decisão foi tomada há algum tempo, quando conversamos sobre nossas novas direções. Só não foi anunciada antes porque me pediram para retardar minha partida até que se achasse um substituto que preenchesse a lacuna. Não é impossível que alguns deles trabalhem comigo em outras oportunidades.

As seguintes constatações têm pouco a ver com a realidade:





Peter Gabriel deixou o Genesis:





1) Para trabalhar no teatro;





2) Para fazer mais dinheiro como artista solo;





3) Para ser um ‘Bowie’;





4) Para ser um ‘Ferry’;





5) Para pegar um boá, colocar ao redor do meu pescoço e se enforcar com nele;





6) Para visitar uma "instituição";





7) Para envelhecer de bengalas.










Não me expresso muito bem em entrevistas e senti que devia isso às pessoas que doam seu amor e sua energia à banda — para que tenham uma pintura acurada de minhas razões.







Um comentário:

Rodrigo Azevedo disse...

E não é que este blog continua atualizado e aconhegante?

Super beijo.