"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


A Produtora Signos Possíveis começou neste blog de escrita. Aqui você encontrará uma seleção de textos escritos e escolhidos por Madeleine Alves. Para saber mais sobre o trabalho da produtora, procure a gente nas redes sociais!


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terça-feira, 10 de abril de 2018

Aluvião, aliviai

Madeleine Alves


Era um dia chuvoso e Rose observava o cair da chuva por detrás da janela. Encolhida em seu sofá, avistava o caminho que a água percorria bifurcar-se, trifurcar-se pelo vidro grande e salpicado de gotículas, enquanto abraçava as pernas recolhidas como quem precisa de um abraço. O queixo por sobre os joelhos. Por sobre a cabeça, nuvens espessas e cinzentas de pensamentos; enquanto que, por dentro, o peito era um poço fundo no qual, talvez, houvesse um mar de sentimentos reprimidos.

Rose despetalava-se naquela tarde de domingo. A chuva fustigava a vidraça e incutia-lhe uma obsessão: quando, enfim, teria uma vida para chamar de sua?

Castrada emocionalmente, castrava outros. Talvez, os mais importantes. Sentia a pele espessa e áspera, como quem há muito tempo não sabia o que era o toque do amor. Teria, algum dia, sabido o que era isso? Saberia, algum dia, o que é isso?

Estava farta dos gritos. De compromissos inadiáveis. De noites insones. Já não suportava mais carregar os fardos alheios. No fundo, a lágrima que agora escorria no rosto de Rose era o caminho tortuoso que a água traçava no vidro e lhe inquiria: ate quando? 

Até quando tudo tanto para o mundo...

... e tão pouco para si?

Como quem se contenta com o chocolate mofado no bar da esquina ou o pó do suco insosso do hipermercado. E ainda acha-se com sorte no "Leve 4, Pague 3".

A vida, Rose, cobra cada uma de suas moedas.

E então, Rose murchou e desaguou em lágrimas.

Trovejava lá fora e, aqui dentro, Rose adquiria tons cinzentos nos seus cabelos. Subitamente, o choro era tão sentido - este que fora tão calado e ignorado - que Rose surpreendeu-se por ainda ter a capacidade de chorar. Quando fora a última vez? Não se lembrava...

Mas agora, desaguando, lembrava-se de uma cena tão terrível quanto bela. Era uma cortina de chuva chegando no horizonte, recém-passando montanhas, lá no alto-mar. Em seu vestido vermelho, sentia o vento beijar-lhe os cachos, sentada na pedra, admirando a tempestade chegar e varrer, acortinar o céu, fundir-se com o mar. Naquele breve instante de contemplação, sentia-se livre. Fora a última vez.

O focinho de seu cão tocou-lhe as pernas. Cabisbaixa, a testa, que tocava os joelhos, levantou e viu aquele ser que nunca a abandonava. E que perseverava amando-a mesmo nos dias mais odiosos. Era um olhar doce, puro e fiel como só um cão poderia lhe dar naquele momento. Rose, então, afagou-o, endireitando o corpo. Olhos inchados e coxas úmidas de sal de lágrimas, estendia-se para encontrar o cão - que só queria brincar.

Does anybody remember laughter?

De graça em graça, o cão salvou Rose como quem planta uma semente de bem naquele jardim que só a alma abarca. A grande janela estava agora salpicada de gotículas pós-chuva. A cidade e sua caixa-d'água romana desativada estendiam-se plácidas, enquanto nesgas de luz solar ousavam cortar as nuvens e, corajosamente, formar novos matizes. Era Deus pintando um novo e inédito pôr do sol.

Rose sorriu novamente: sentia-se rica daquilo que o dinheiro não compra. Tinha olhos para apreciar a riqueza do mundo - que nos é dada de graça. E é disso que se nutre a esperança que invadiu o peito de Rose.

Rose agora sorri novamente: duas borboletas pousam no vidro. É tempo de se transformar.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Véspera do Dia do Rock – Noite

Madeleine Alves


Viver é perder cascas continuamente

Era uma noite fria e estrelada lá fora enquanto Vera se olhava no espelho cá dentro.

Nos últimos dois meses, já perdera as contas de quantas vezes já o tinha feito. Mas a cada vez, era sempre como a primeira. Difícil. Começava assim, com uma frase-clichê:

- Paul, preciso conversar uma coisa com você...

Frases-clichê são muletas muito úteis quando o discurso precisa andar. O peito arfava, as olheiras fundas, os ombros arqueados... tudo pesava. Mas não mais do que ter que tomar aquela atitude.

Fazia um ano, sete meses e quatro dias que dissera “Sim” ao pedido “Dessa vez, vamos namorar?” 

Tanto pouco para tantos outros – tão muito para Vera. Comparando-se aos anteriores, parecia uma vida. E a vida antes disso, parecia uma outra vida. Lembrava daquela noite dentro do Gol à beira-mar. Ao redor, todas as luzes de Natal. Daqui a uma hora, descobririam que a bateria arreou e Jacques, irmão de Paul viria ajudar naquela situação hilária.

Aquele não era exatamente um começo: anos antes, o começo do começo havia sido nos bancos escolares de um amor de verão. Leve, porém constante – um quase-namoro não assumido. Uma viagem no fim do verão e seu retorno fizeram acabar aquela experiência-cápsula que havia sido boa. 

Mas... vida que segue.

E a vida seguiu. Um ano, dois anos, três anos. Quatro anos. Turbilhões atrás de turbilhões, às vezes um recorrente “Oi” via internet intrigava Vera. “O que ele quer?”, ela pensava. Mas seguia: as várias dores e delícias da descoberta da vida lá fora não deixavam Vera intrigar-se por longo tempo. E no entanto... às vezes, emergia a questão: “E se tivesse dado certo, como seria?” Numa noite, Paul escreveu que estava com depressão. Vera não sabia dizer não a um apelo desesperado.

- Nossa, você quer conversar? Não fica assim, vem pra cá e a gente conversa.

Nunca soube exatamente se era um pretexto ou um fato. Mas duas semanas depois, quando ainda se viam e se falavam quase todos os dias como naquele verão, quando veio o “Dessa vez...”, a recorrente pergunta teve uma resposta.

Então, Vera soube como poderia ter sido porque efetivamente entregou-se de corpo e alma a viver esta experiência e a obter esta resposta. No fundo, sempre soube qual seria o fim – ou seja, que teria fim. Mas não foi sem uma grande dose de coragem que escreveu linha por linha o enunciado que respondia àquela pergunta-ideia-fixa.

No início, tudo são flores, todas as diferenças parecem pequenas e viver a energia de um novo relacionamento permeia os dias. Permeiam as horas. Permeiam as, em média, 6 ligações/dia. Permeiam os fins de semana que Vera deixou de passar com sua família não-convencional para passar com a tradicional família de Paul.

Quando Vera deu por si, estava impermeável a tudo que não fosse aquela relação. E como era difícil desimpermeabilizar! Todo o externo ficou turvo e embaçado dentro daquela bolha envoltória na qual – ainda que com muita atenção, ainda que com muito carinho, ainda que com muitos momentos bons – por vezes, sentia-se sozinha.

Sozinha como a ausência presente paterna. Um dia, Vera pegou-se pensando nas similaridades entre o hiato que era seu pai em sua vida e o hiato que, sem querer, Paul também era. “Arquétipos”, refletiu. E o que é a jornada dessa vida se não ir além dos arquétipos?

Pagou preços altos por ir além. Família, amigos, colegas – ninguém entendia o que Vera estava fazendo com Paul. Educados com ele, francos com ela.

- Eu não entendo o que você viu nesse cara!

- Pelo amor de Deus, você merece coisa melhor!

- Que futuro vai ter um cara que trabalha com os pais? Estagnado desse jeito, você carrega esse cara nas costas...!

Houve até um dia no qual recebeu a seguinte mensagem:

- A pessoa que é a pessoa pra você olha e não consegue entender o que você viu nesse cara! O que você tá fazendo com ele, a pessoa não entende!

- Mas a pessoa que é para mim está próxima? – ah, curiosidade de Vera por respostas era ilimitada!

- Sim, está! A pessoa está do seu lado! – foi a resposta que recebeu.

Mas quem era “a pessoa”? Não soube. Claro que não sabia! Olhava transtornada para os lados em busca de pistas sobre isso... mas nenhuma conclusiva. Todas enganosas, envoltas em névoa, apontando pra nãos e “talvezes” frágeis. Nenhuma que apontasse a direção certa. E continuou “a experiência de ir além dos arquétipos” – porque, afinal, decidiu ir até o fim dela.

Foi até o fim das noites de vazio e decepção. De tentar empurrar adiante uma persona que vociferava verdades, mas não as vivia. De ir adiante e ver Paul ficando feliz com a mesmice, com a rotina, com o tudo do jeito que sempre foi – ainda que dissesse que queria mudar com convincente ênfase.

Vera – sempre disposta a viver as verdades de sua essência, de se desafiar, de ir um pouco além no alcance de seus muitos sonhos-metas – vivia uma mentira. A mentira de um longo e estável relacionamento de “amor dito” e “amor não-vivido”. E ainda assim, por mais que doesse, por mais que chorasse, por mais que por vezes quisesse correr dali – ainda assim, vivia. Vivia para entender e contar histórias que tivessem dilemas cotidianos que dessem profundidade ao seu ofício de contar histórias. Por todos aqueles que vivem vidas vazias de sentido. Por todos aqueles que vivem mais aparências do que deveriam. Por todos aqueles que mantêm o status quo. Por comodismo, por carência – por não ousar ir além.

Quando olhou ao redor, era como uma terra devastada. Longe dos amigos. Longe da família. Naquela redoma onde só os mais persistentes sabiam como adentrar sem pedir licença. A todos, Vera dizia:

- Calma, não vai ser para sempre! Eu preciso ir até o fim e encerrar este capítulo!

O início do fim veio em uma noite na cozinha. Sandra, mãe de Paul – uma mulher muito ativa, objetiva e decidida, ao contrário do filho – vociferou a ele:

- Paul, eu não sei o que a Vera tá fazendo contigo, meu filho. Eu, se fosse ela, já tinha terminado faz tempo!

Então, entendeu que aquele era o sinal de que... já bastava daquilo! Mas... como sair daquela redoma impermeável? Como achar ar fresco?

Os finos véus do cotidiano prendiam a disposição para o fim como se feitos de aço. Quanto mais se debatia para sair, mais presa se via. Foi quando se olhou no espelho pela primeira vez.

Agora, naquela noite de véspera de dia do rock, tocava Better Man, do Pearl Jam. Uma lágrima escorria no rosto cansado e nas olheiras fundas de Vera. E a Verdade era que aquele rosto, aquelas olheiras, aqueles ombros eram de Paul. Ela se havia transformado naquilo que tanto criticava também. Que tanto apontava também. Que tanto julgava também.

She practises her speech.

Era criou um personagem para dar força àquelas falas.  

Memories back when she was young and strong and waiting for the world to come along.

E praticou. Uma vez, duas vezes, três vezes. Um mês, dois meses. Titubeando, ainda, decidiu marcar um dia, um deadline. Para ter mais certeza, buscou dos conselhos de quem sabia quais eram as respostas.

She dreams in color
She dreams in red
Can’t find a better man

Sim, podia. Se pôde ter forças para ir tão longe, tinha forças para ir até o fim. Enquanto secava o rosto, Vera lembrou-se das suas covardes tentativas de fazê-lo terminar com muito mais vergonha do que a iniciativa que tinha em mente. Afinal, para ele tava tudo bem. Ele via nela os filhos que ela nem queria lhe dar. Ele via a casa no lugar ermo, escuro e afastado do mundo que ela não suportava nem pensar. Ele estava feliz com aquela mesmice de vida de menino mais velho que ela não conseguia conceber enquanto um dia a dia embaixo do mesmo teto. Não – ficou claro que o ponto final dessa narrativa seria à Vera.

Recordou, ainda, de tempos mais antigos e da promessa que um enigmático amigo de sua família então lhe fez:

- Quero que você me prometa, Vera, que fará de tudo para ser feliz. E que fará de tudo para não ser infeliz.

- Si-si-sim, eu... eu prometo. – respondeu uma jovem Vera que nem entendia a profundidade da promessa, do compromisso que isso exigia. Passar por isso lhe fez reconhecer o verdadeiro peso escandido do enunciado. E isso lhe deu força.

Respirando profundamente, repetiu o texto quase mecânico que por tanto tempo desenvolvera para aquele personagem tão investido de si mesma. Foi dormir. No dia seguinte, despediu-se como sempre da família dele, de modo quase mecânico. Havia no ar uma leve névoa de inverno, que não escondeu as copiosas lágrimas resistentes de Paul, e as lágrimas que Vera não pôde conter. Só porque é triste o fim. Levantaram-se, abraçaram-se, sem ofensas, apenas dor.

Ela andou metade do caminho pra casa, e na outra metade, pegou uma condução. Enfim, virara a folha e recomeçava. A redoma quebrou-se e do lado de fora, nada era mais o mesmo. Com que esperança tola ela havia se agarrado a alguma noção de que tudo esperaria imóvel o tempo do fim? Serviu enquanto força, não enquanto fato.

Mas seguiu. Um dia, sabia, transformaria aquilo tudo em arte. Quando fosse madura o suficiente para racionalizar esse tipo de coisa. Quando o tempo certo viesse, e as palavras não fossem tão fugidias, não fossem de personagens, mas fossem de fábula e verdade.

Instantaneamente. Parecia ter aliviado duas toneladas dos ombros. Voltou a sorrir, a arquear os ombros, a olhar pra frente e a encontrar contentamento no presente. Como por mágica, amigos antigos lembraram-se dela para perguntar um “E aí? Beleza?”

Beleza. Sua tia disse que se arrependeria. Será?... Ideias fixas podem ser um martelo, um martírio que atravanca o caminho. Ao menos, teve coragem para ver, viver, aprender e perder cascas continuamente.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ponto Continuado

Madeleine Alves

Respirar.
Respiro fundo, longo, que preencha uma existência inteira.
Inundar-se de gotículas de ar a fim de se perder numa enxurrada de suspiro.
Entrar pelo nariz, mover o diafragma, enxer os pulmões até não poder mais — e soltar pela boca devagar, saboreando às avessas...
Oxigenar o cérebro e pedir aos neurônios uma lembrança que equivalha à solenidade ínfima desse movimento...
Seguem-se as notas da escola.
Por sua vez, as notas das músicas que enlevam e levam em si essa lufada ínfima de ser.
Depois, as notas de rodapé: em fonte mínima, longevidade ou não, nem sempre se lembra delas...
Então, nota de 5, 10, 20, 50... em si, papel-moeda é tudo igual — são as pessoas que acham que, numa balança, ele pesa o mesmo que uma vida.
Um grama.
Uma vida leve como a pluma, inundada por plantações de ar em solo fértil de alvéolos, pronunciando-se pela atmosfera de Ser...
Nota-se, por fim, que não há outro jeito de ensinar a vida a não ser que se seja dela um curioso aprendiz repleto de suspiros e respiros...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Longe, aqui do lado:


Madeleine Alves




Preso dentro de mim, mora alguém que eu nem sei quem é.




Preso aqui dentro, os outros nem imaginam quem sou.




Os outros, dentro de seus mundos respectivos, não querem saber dos outros.




Não se admira que sejamos todos depressivos...
















Dança — Lívio Abramo

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Quem Explica?

Madeleine Alves


Eu me escondo atrás das sombras dos olhos de outrem.

Me escondo atrás de sua fala inconseqüente, de seus volteios, de seus risos e (in)certezas.

Eu me eclipso.




Por que será que toda a inteligência se esvai pela palavra - a semente do conhecimento?

Porque todo o insólito de suas vestes é obviamente imaterial e não há quem expresse essa Lua que me invade a pele e a consciência.

Apesar da eficácia de minhas "momices", da verborragia pontual no fim de cada frase, das análises perspicazes e do diploma de Psicologia que emoldura a parede à frente, admito ser um leigo na arte que me agita os nervos - mesmo contra minha vontade.


Pronto! Pode fechar a página e... apague a luz, por favor?

segunda-feira, 26 de maio de 2008

GUIA TURÍSTICO












Jaílson Gomes

Inacreditável!

Eu estava diante das ruínas de um anfiteatro romano. Esperara tanto por aquela ocasião e agora, dominado por emoções provocadas por descargas de adrenalina na corrente sangüínea, não tinha com quem compartilhar aquele momento. Por um instante, pensei em estar sonhando. Cerrei os olhos, respirei profundamente e, na certeza de que não estava sendo vítima de imagens oníricas, procurava visualizar a vida cotidiana daquele lugar, tal como teria sido dezoito séculos atrás. Para minha surpresa, ao abrir os olhos, estava eu, lendo avidamente um guia turístico com informações sobre Saint Albans. Teria eu sonhado acordado? Ou como dizem os ingleses, “Had I been daydreaming?”.

Cidade inglesa aprazível, situada aproximadamente a quarenta quilômetros ao norte de Londres, Saint Albans é um daqueles lugares fantásticos, com uma história riquíssima, onde passado e presente confundem-se. O sítio da atual cidade era habitado desde a Idade do Ferro. Depois vieram os celtas, os romanos, os saxônicos e os normandos. Esses povos deixaram uma herança cultural vastíssima, em outras palavras, todos contribuíram para a formação da The British Heritage. muita história naquele lugar. Tanta história, que uma simples visita à cidade proporciona uma sensação difícil de explicar. É algo como embarcar numa máquina do tempo e voltar a um passado distante, muito distante. Todas essas informações estavam naquele guia e quanto mais lia, mais me sentia atraído por aquela fonte inesgotável de história. Estava decidido. No próximo domingo, dia de minha folga, pegaria o trem na estação ferroviária de Saint Pancras, ao norte de Londres, e iria ao encontro do sítio arqueológico de Verulamium que fora, no apogeu do vasto domínio romano, a terceira maior cidade na Britânia, província mais setentrional do império.

Era uma manhã fria e úmida, típica do final do inverno inglês. Pela janela embaçada do trem, que seguia velozmente para Saint Albans, eu admirava a paisagem rural, ao mesmo tempo em que imaginava quantas vezes aquele caminho havia sido percorrido pelas caravanas de comerciantes que, partindo de Londinium, abasteciam as cidades satélites ao norte da província: Verulamium, Lugdunum e Sulloniacis. Esses mercadores, vindos da capital da província, chegavam à Verulamium pelo portão sul, hoje conhecido como The London Gate. Era uma viagem relativamente rápida e segura. O trem seguia seu destino, deslizando suavemente sobre os modernos trilhos da British Rail.

Mas por que a cidade de Saint Albans recebera tal nome?”, perguntava eu. “Que relação havia entre Verulamium, nome dado pelos romanos, e Saint Albans, nome adotado pelos normandos?” Historia se encarregaria de responder às minhas indagações. E eu pressentia que tinha um encontro marcado com ela. Em breve, Historia estaria ali, diante de mim, expondo seus fatos, interpolando suas eras, descrevendo personagens e lugares, deflagrando seus conflitos e envolvendo-me com sua maneira irrepreensível de contar história. Historia, para quem não sabe, é uma grande amiga minha. Apesar de passarmos bons momentos juntos, devo admitir que nosso relacionamento não é, por assim dizer, uma simbiose. Em nosso relacionamento, eu sou o único beneficiado.

O trem chegou pontualmente às dez horas. A temperatura havia caído um pouco mais. O vento chicoteava meu rosto e a sensação térmica era como mergulhar as mãos em águas geladas. O céu assumira uma coloração carregada de um tom cinza escuro, denunciando uma chuva que não tardou a cair. Devo admitir que fiquei um tanto quanto desapontado com as primeiras imagens em Saint Albans. As casas, os edifícios públicos, as ruas, as praças e os jardins pareciam não corresponder àquelas fotos do guia turístico. Procurei avidamente por sinais que indicassem a era vitoriana ou a idade média ou a ocupação normanda ou o período saxônico ou o longo domínio romano ou o longínquo passado celta. Tudo que podia ser visto eram as típicas e cansativas fileiras de sobrados geminados, erguidos após a segunda guerra mundial, no período de reconstrução do país. Procurei não deixar me abater por aquelas primeiras e vagas impressões. Munido de um Street Finder e parecendo saber o caminho a percorrer, mentalmente perguntei-me: “Quo vadis?” A resposta veio automaticamente “Ad Verulamium.”

Era isso. Precisava sair dali. Deixar aquele espaço repleto de edificações do século XX, que em nada sugeriam o passado glorioso descrito no guia turístico! Iria procurar o anfiteatro romano, o fórum, a basílica, a cúria, o templo triangular dedicado à Ceres, os arcos triunfais e o Hypocaust[1] . E ainda tinha um encontro com Historia.

Caminhando contra o suave aclive da Victoria St. até a confluência com a St. Peter St., bem em frente à prefeitura, meus olhos foram forçosamente capturados por aquele grande, apelativo e inconfundível eme amarelo sobre um fundo vermelho.

Não. Definitivamente não. Não ali em Saint Albans, berço de um passado glorioso, cidade que traz em seu seio as marcas indeléveis do apogeu de uma civilização grandiosa. Será que tudo que havia restado do majestoso SPQR romano era o logotipo de uma multinacional representado por uma consoante bilabial sonora?!

Bem, romanos e americanos à parte, com suas políticas imperialistas, sigamos adiante. Imediatamente, num gesto de repúdia e indignação, virei em direção oposta, e finalmente pude vislumbrar os primeiros sinais da British Heritage. Estava descendo a Chequer St., em direção à London Road, quando visualizei a Torre do Relógio (Clock Tower), construída entre 1402 e 1412, que naquela época era o centro da cidade medieval.

Havia voltado no tempo quase seis séculos. A cidade moderna não estava : havia simplesmente desaparecido diante de meus olhos! A era vitoriana e o período elisabetano haviam ficado para trás. Para minha surpresa, pude observar Historia, Praeterius e Tempus sinalizando com o dedo indicador para que eu os seguisse através do portal que ficava abaixo da Torre do Relógio. Fiquei feliz pela receptividade dos três irmãos. Ao passar pelo portal, e ter voltado no tempo mais uns quatro séculos (era o ano de 1077) estava ela, diante dos meus olhos, toda imponente e majestosa: a catedral de Saint Albans.



Nesse momento, observei que a cidade medieval desvanecia-se e, em seu lugar, uma pacata vila normanda ia surgindo aos poucos. O idioma local não era o inglês. A nobreza falava uma forma de francês antigo e os camponeses saxônicos utilizavam um falar germânico, mais antigo ainda. Os clérigos, por sua vez, tinham o latim como vernáculo. Minha anfitriã, Historia, sempre prestativa, passava-me muitas informações sobre aquele templo. Era impressionante o seu conhecimento sobre aquele lugar. Dotada de uma memória invejável, ela descrevia os eventos, relacionava-os, interpretava-os, enumerava-os, tudo dentro de uma ordem cronológica linear. Praeteritus, por sua vez, ficava ali, quietinho, imóvel e distante de nós, enquanto Tempus, taciturno como sempre, balbuciava algumas palavras ininteligíveis. Entretanto, a presença dos irmãos era imprescindível, pois sem eles, Historia era incapaz produzir fatos históricos.

Meus amigos deixaram-me à vontade. Colocaram-se à disposição para eventuais dúvidas e, diligentemente, foram assessorar um guia turístico que orientava um grupo de visitantes japoneses. Aproveitei a ocasião para explorar cada cantinho da catedral: o altar mor, o relicário de Santo Albano, as pinturas medievais, a torre etc. Mas o melhor ainda estava por vir. Deixei a catedral pela grande porta leste localizada, segundo Historia, defronte do exato local do martírio de Albano. Albano teria sido o primeiro mártir cristão em solo britânico. Vamos precisar voltar no tempo outros oito séculos, mais precisamente no ano 209 d.C., para entender os fatos que culminaram com a morte, por decapitação, desse cidadão romano cristão.

Assim que saí do templo, atravessando a porta leste, vi-me no topo de uma colina sobre a qual os abades, em longos períodos intermitentes, haviam erguido a catedral. Nesse momento, Historia aproximou-se e orientou-me quanto ao caminho a tomar.

- Para chegar a Verulamium, basta descer a encosta leste da colina.

- Obrigado, Historia. Vou agora mesmo.

Ao virar à esquerda, tomando a direção indicada por minha amiga e descendo a colina, pude vislumbrar uma grande área, verde e aberta, que hoje em dia é conhecida por Verulamium Park, mas que no início do século III era a localização do terceiro maior conglomerado urbano romano em terras britânicas. Tal como uma criança, que se contagia facilmente com qualquer tipo de brincadeira, desci a colina em disparada, esquecendo de minha amiga por um instante. Afinal de contas, aquela seria a primeira vez em minha vida que eu estaria pisando em solo romano, apesar de não estar em Roma. De longe, podia avistar o ir e vir dos habitantes, a grande muralha circundante e o rio Ver que, correndo no sentido norte-sul, acompanhava toda a extensão externa da porção oriental da muralha.

A garoa havia cessado, mas o frio intenso fazia subir um ar pungente e gelado que secava as minhas narinas. Podia-se sentir a umidade e também visualizá-la por sobre as fortificações do grande muro e troncos de árvores. Um olor espesso e saudável, proveniente das folhas caídas e do solo saturados pela água da chuva, permeava o ar. Ao chegar à margem do rio, atravessei uma ponte em arcos que, a julgar pelo seu porte e solidez, devia ser o principal acesso à cidade para quem vinha do oeste. Virei à esquerda e prossegui por uma estrada que beirava a muralha. Naquele lugar, parei para apreciar a imponente catedral sobre a colina. Nesse instante, apenas a colina podia ser avistada – a catedral e a vila normanda, como em um passe de mágica, haviam sumido. Tempus havia pregado mais uma de suas peças.

Após caminhar algumas centenas de metros, atingi a extremidade da muralha que, naquele ponto, fazia uma curva acentuada à direita para, desta vez, proteger a porção sul da cidade. Eu estava muito próximo ao The London Gate e podia ver que, de Londinium, através da via romana, chegavam os mercadores trazendo, além de víveres e suprimentos, notícias da capital da província e da distante Roma. Inúmeros habitantes de Verulamium jamais haviam viajado além do grande canal. Tudo que sabiam sobre a cidade eterna era obtido através dos relatos de pessoas recém chegadas. Muitos desses moradores sedentários descendiam dos primeiros romanos que chegaram após sucessivas tentativas de invasões e permaneceram para proteger, administrar e garantir a posse da província. A primeira tentativa de conquistar a Britânia ocorreu por volta de 54 a.C., quando Júlio César e suas legiões cruzaram o canal. Mas foi o imperador Cláudio que, quase cem anos depois, em 43 d.C., utilizando o caminho pavimentado por Júlio César, definitivamente invadiu e conquistou a distante província, anexando-a à Pax Romana. Dentre os recém chegados figuravam, além dos mencionados comerciantes, os magistrados, soldados, aventureiros, escravos, degredados e gladiadores. Cada um à sua maneira, e para a felicidade do povo, abastecia o lugar com informações recentes sobre o império e sua capital.

Minha viagem estava próxima ao fim. Mas Historia ainda guardava uma última surpresa. Quando estava atravessando o imponente portão sul – observei que ele era protegido por dois soldados de guarda, com seus uniformes de invernonão pude deixar de ver que uma multidão exaltada caminhava em minha direção. À frente, de mãos atadas e trajando um uniforme de oficial da guarda romana, vinha um homem que estava sendo ultrajado por um grupo de pessoas ensandecidas que gritavam: “Morte ao traidor do imperador! Morte ao infiel!”. A despeito da turba que o insultava, aquele homem exibia um semblante de tranqüilidade e imperturbabilidade.

Aproximei-me, de uma senhora que, diferente de mim, não estava nem um pouco perplexa e indignada e que parecia aprovar toda aquela comoção. Lancei-lhe um olhar inquiridor e ela explicou-me tratar-se de Albanus, comandante da guarda, que acabara de ser julgado no anfiteatro e condenado à morte por decapitação – naquele tempo, na Roma antiga, essa era forma de pena de morte reservada aos cidadãos romanos, um privilégio, segundo eles – e que estava sendo levado da cidade ao topo da colina, para ter sua sentença levada a cabo. Perguntei-lhe qual teria sido sua falta.

- Ele foi acusado de dar abrigo a um tal de Amphibalus. Dizem por que Amphibalus, seguidor desta superstição que se espalha rapidamente pelo império, converteu Albanus durante sua estada.

- Que superstição, minha senhora?

- Trata-se daquela seita de fanáticos que coloca um galileu acima dos poderes imperiais. Em Roma são muitos. Nosso augusto imperador Septimius Severus, que Ceres esteja com ele, parece não conseguir conter o crescimento dessa seita.

- Por Júpiter! Mas nãoclemência para seu crime?

Agindo com naturalidade, procurava disfarçar minha indignação. Fico imaginando o que fariam se descobrissem que sou um cristão da terceira revelação.

- Ofereceram-lhe clemência. Mas com uma condição.

- Qual foi a condição, minha boa senhora?

- Que ele negasse publicamente essa estranha.

- Presumo que tenha recusado.

- Veementemente. E com toda a impassibilidade desse mundo, proferiu o seguinte: “O senhor é o meu pastor, nada me falta; colocou-me num lugar de pastos e converteu a minha alma.” Palavras estranhas para alguém que está para ser decapitado. Não pensas o mesmo?

A jovem senhora, sem esperar por minha assertiva, seguiu o grupo de pessoas e soldados em direção ao patíbulo. Procurei permanecer calmo e indiferente a toda aquela situação. Mas dentro de mim, uma sensação de impotência pulsava junto com o meu coração. Albanus estava prestes a passar para a história, tornando-se o primeiro mártir cristão das Ilhas Britânicas. Por ironia do destino, séculos depois, aquele lugar receberia seu nome. Preasens era imaturo demais para conseguir compreender suas nobres intenções. Futurum lhe reservaria, alguns séculos depois, um lugar de honra na história do cristianismo.

Por um tempo, fiquei acompanhando aqueles loucos até onde a vista podia alcançá-los. Eu nada podia fazer, pois não cabia a mim interferir nos assuntos de Historia. Nada mais me restava senão seguir adiante a fim de concluir minha jornada turística. Atravessei o grande portão, rumo ao teatro romano e, mais uma vez, meus olhos pareciam não saber interpretar as imagens que chegavam ao meu cérebro. O horror dos últimos acontecimentos privara-me da razão. Verulamium não estava mais . O templo triangular de Ceres, o anfiteatro, a basílica, o fórum, a cúria, os arcos triunfais, tudo havia evaporado como num passe de mágica. Historia, Praeteritum e Tempus apontavam para o horizonte querendo mostrar-me uma última imagem. Uma luz tênue anunciava as última horas do dia. Por um breve momento, pude observar que um grupo de celtas, da tribo Catuvellaumi, acendia uma fogueira no centro de um acampamento. A noite seria fria. O chefe da tribo, reunido em volta do fogo com seu clã, preparava o seu repertório de histórias. Histórias que haviam sido contadas de geração em geração, desde tempos imemoriais quando seus antepassados forjaram a primeira arma de ferro.

Era a última página do guia turístico. Fechei-o e fiquei imaginando um lugar como Saint Albans, pensando seriamente em incluí-lo no meu próximo roteiro de viagem.



[1] Sistema de aquecimento romano.