"Pequena história destinada a explicar como é precária a estabilidade dentro da qual acreditamos existir, ou seja, que as leis poderiam ceder terreno às exceções, acasos ou improbabilidades, e aí é que eu quero ver" (Julio Cortázar)


A Produtora Signos Possíveis começou neste blog de escrita. Aqui você encontrará uma seleção de textos escritos e escolhidos por Madeleine Alves. Para saber mais sobre o trabalho da produtora, procure a gente nas redes sociais!


Mostrando postagens com marcador Amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Projeto Perpétuo

Madeleine Alves

Precisamos, todos os dias,
arar a terra da alma
com ternura.
Regar o solo sensível
com chuvas poéticas
de afeto.
Fazer, assim,
brotar galhos de bem
e flores
com o indizível odor do Amor
— ainda que haja
tanto concreto de ódio
por aí.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"Até a Eternidade"

Madeleine Alves

Era um dia triste, mas estava apenas catatônico. Sentado em sua cadeira, mal notava o desfile de parentes; as coroas de flores, os choros e soluços da família eram sons que vinham de um mundo distante.

Amaro só tinha olhos para o esquife. "Esquife", palavra antiga e refinada, quase apagada do vocábulo geral — muito melhor do que aquela com som de coisa que despenca no chão: caixão. Ou talvez o esquife fosse um objeto translúcido, posto que neste momento, a sua frente, sua atenção e sentidos estavam voltados, como há 50 anos, para Dulce.

Dulce partiu.

Toda uma época, Amaro havia sido mourão forte. Dulce era a parte sensível de seu mundo. Naquele momento em que um filme passa na cabeça, era inevitável o flashback: o baile onde se conheceram; as conversas no portão e suas furtivas trocas de olhares; o beijo — meio querido, meio roubado — sob o pé de ipê amarelo e sobre o chão forrado de amarelos caídos; o sim no altar e os três filhos que se seguiram.

O casamento na igreja era mais uma imposição social-familiar do que uma crença. Amaro, com a fibra de quem passou bocados na vida, transformou-se em um cético com tudo. Ao contrário de Dulce, que era pura fé.

Naquele momento de despedida, Amaro deu-se conta de que haveria grande possibilidade de ter acordado todos os dias após a existência de Dulce graças a momentos bem fugazes. Pode ser que acordasse para ver o sol iluminar os cabelos acobreados de sua esposa; certamente, só despertava após o aroma de café e alguma música que ela cantarolasse enquanto passava a manteiga no pão. O riso de Dulce enchia uma sala em segundos, e era o ponto de mudança de um humor péssimo para um pouco mais de otimismo por parte de Amaro.

Não que a vida tenha sido só flores. Eram um casal à moda antiga, mas tiveram brigas, dormidas no sofá, copos quebrados e gritos na madrugada, como qualquer casal. Só que acreditavam naquele olhar — aquele primeiro que os uniu e os unia sempre com laços inexplicáveis e invisíveis, resilientes às dificuldades do cotidiano. O que os fazia andar como dois apaixonados pelas ruas do centro da cidade mesmo com cabelos brancos, mesmo depois de tantos anos, como se a adolescência estivesse na alma, rindo-se e cochichando-se de si para si.

Agora que todos os parentes rezavam um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e que a médium do centro espírita frequentado pelos seus filhos discorria sobre a longevidade do espírito para além da matéria, Amaro concebeu que aquela fagulha de vida que animou aquele corpo agora inerte — como se dormisse tranquilo —, aquela porção que o fazia pleno não se acabaria no esquife. Chegou a pensar em coisas como transcendência. E de porventura até existisse um Deus — se o quisessem chamar assim — por detrás de cada minúsculo momento que viveu ao lado daquela mulher e da família que criaram juntos. Há fios maiores que tecem a tessitura do Amor.

Não foi sem surpresa que filhos, netos, irmãos e amigos viram Amaro aproximar sua cadeira de rodas do caixão de Dulce e sussurrar, numa voz quase sumida, porém sem lágrimas:

— Adeus, Dulce. Até a Eternidade!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Yin vê já


Madeleine Alves

Algumas sementes aladas voaram

Alguns olhos arregalaram-se

Algumas palavras foram ditas...


O ensurdecer do não-dito

A maldizer os esforços

de quem não dá ouvidos às amarras do não-posso...


As sementes só germinam quando o solo compreende que é preciso ser fértil nos bons nutrientes do Amor.

sábado, 12 de julho de 2008

de Rodrigo Azevedo


Estranho este mundo em que vivemos. Minhas amigas reclamam sempre que são incompreedidas, que os homens não entendem elas. Tenho vários contatos femininos, e percebo claramente o que acontece: excesso de alto-estima, excesso de baixa-estima e uma forte variância entre os tempos dessa música.

Ontem mesmo uma dessas amigas ligou para mim. Falou que o namorado novo dela era um cretino insensível, mulherengo, cafajeste, estúpido ao extremo e que só queria saber de sair com os amigos. Conheci o ponto de vista dela. Mas logo percebi o modus-operandi do rapaz. Perguntei, secamente, o que ela viu nele para estarem juntos. Ué, se o cara é um cafajeste, mulherengo, estúpido ao extremo e que deve arrotar e dar risada do barulho, o que uma mulher com o ela viu nele?

– Ele é bonitinho! Mas é um grosso e desalmado, disse.

Às vezes canso de repetir que os encaixes ovais da vida invariavelmente não se ajustam aos quadrados do romantismo. Percebo que a busca incansável por um par perfeito torna-se cada dia mais desgastante e desmotivadora. Aquele sujeito de chapéu panamá, que gentilmente retira seu terno risca-de-giz e o posiciona sobre a água para que sua donzela não suje os pés, que tem sempre uma caixa de godiva e uma rosa vermelha sempre pronta para presentar está quase extinto. Digo quase extinto porque ainda deve existir alguém assim. Alguém que ainda escreva poesias para a amada, que passeie de mãos dadas, que sabe que uma rosa é um presente de grande significado.

Essa minha amiga não sabe, mas ela é feliz com o grosso, insensível, cafajeste e mulherengo. É claro que ele precisaria mudar algumas coisas. Mas um "ameaçado de extinção" nas mãos dela sentiria-se usado e ficaria magoado. Não seria apto para a reprodução, seriam mais duas araras azuis que não se reproduzem em cativeiro.

A vida é assim. Seu par perfeito não precisa ser o poeta romântico, melodramático e culto. O não tão inteligente, cafajeste, mulherengo e sacana às vezes cai muito bem com sua personalidade. E os altos e baixos desta relação conturbada e magnifica continuam, ao passo marcado da valsa de quinze anos.


Confira este e outros textos ótimos de Rodrigo Azevedo no seu blog Intensa Magia .